Efeito Colateral Viagra Feminino

Resumos

Disfunções sexuais são altamente prevalentes em mulheres e relacionadas, entre outros fatores, a estados afetivos, aspectos socioculturais, situações interpessoais e psicofármacos. As disfunções sexuais induzidas por psicofármacos são brevemente revistas.

Disfunção sexual; feminino; psicofármarcos

Sexual dysfunctions are highly prevalent in women and are affected by, among other factors, affective states, sociocultural aspects, interpersonal situations and psychotropic medications. The sexual dysfunction induced by psychotropic medications was briefly reviewed.

Sexual dysfunction; fernale; psychopharmacology

REVISÃO DE LITERATURA

Efeitos colaterais dos psicofármacos na esfera sexual

Sexual side effects of psychotropic drugs

Táki Athanássios Cordás I ; Marcionilo Laranjeiras II

I Coordenador geral do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Membro do Departamento de Psiquiatria da FMUSP

II Mestre em psiquiatria pelo Departamento de Psiquiatria da FMUSP

Endereço para correspondência

Disfunções sexuais são altamente prevalentes em mulheres e relacionadas, entre outros fatores, a estados afetivos, aspectos socioculturais, situações interpessoais e psicofármacos. As disfunções sexuais induzidas por psicofármacos são brevemente revistas.

Palavras-chave: Disfunção sexual, feminino, psicofármarcos.

Sexual dysfunctions are highly prevalent in women and are affected by, among other factors, affective states, sociocultural aspects, interpersonal situations and psychotropic medications. The sexual dysfunction induced by psychotropic medications was briefly reviewed.

Key-words: Sexual dysfunction, fernale, psychopharmacology

A sociedade ocidental tem-se tornado progressivamente mais liberal em relação às questões ligadas à sexualidade humana. Cada vez de maneira mais precoce, homens e mulheres apresentam questões ligadas à sua vida sexual. Da mesma forma, a expectativa de vida da população tem aumentado nas últimas décadas, na maioria dos países, e a preocupação das pessoas tem-se voltado para a sua qualidade de vida, e, entre seus indicadores, a atividade sexual satisfatória tem sido um dos mais citados (Mendlowicz e Stein, 2000).

Promover a saudável vida sexual contra todos os preconceitos culturais e religiosos vigentes passou a ser um tema constante na área da saúde, levando em todo o mundo à necessidade de aumento dos temas ligados à sexualidade no currículo médico (Wagner, 2005).

Estudos realizados em diferentes países apontam para o fato de que as disfunções sexuais (DS) são bastante prevalentes na população geral. Pelo menos um terço dos homens e das mulheres de uma comunidade apresenta queixas sexuais de gravidade suficiente para necessitar de cuidados clínicos (Laumann et al., 1994; 1999).

Diferentes fatores interferem negativamente na atividade sexual humana, como transtornos psiquiátricos (incluindo tabagismo), doenças médicas gerais (particularmente diabetes, deslipidemias, hipertensão, doenças cardiovasculares) e neurológicas, medicações, conflitos interpessoais, crenças culturais e combinações desses diferentes fatores (Zorzon et al., 1999; Kennedy et al., 2000; Bergmark et al., 1999; Enzlin et al., 2002).

No entanto, quando se trata da relação com transtornos psiquiátricos, a avaliação da vida sexual era, até há pouco tempo, freqüentemente negligenciada. Um dos principais aspectos dessa relação com a expansão dos tratamentos farmacológicos é a interferência dos psicofármacos na esfera sexual e reprodutiva, incluindo o ciclo menstrual, a gravidez e a amamentação.

Com o maior conhecimento das principais síndromes psiquiátricas e em função da difusão pela imprensa leiga de dados sobre psicofarmácos, pacientes questionam sobre efeitos colaterais dessas drogas, opinam sobre suas preferências e revelam seus temores, particularmente sobre gravidez, amamentação, ganho de peso e disfunções sexuais durante o uso dessas medicações (Brixen-Rassmussen et al., 1982; Wisner et al., 1993).

Dificuldades dignósticas

Apesar do aumento do conhecimento sobre o assunto e do menor pudor em lidar com o tema por parte de pacientes e médicos, as definições sobre disfunções sexuais na mulher ainda são muito baseadas nas conceituações de Masters, Johnson e Kaplan (Laan et al., 2003). A clássica seqüência da experiência sexual feminina, descrita por esses autores como desejo, excitação (lubrificação), platô, orgasmo e resolução, não é suficiente para suportar as múltiplas variações normais (Basson et al., 2004).

As prevalências de disfunções sexuais femininas variam imensamente e dependem da informação a ser colhida de maneira espontânea, mediante anamnese estruturada de questionários.

Outra dificuldade freqüente refere-se à terminologia muitas vezes utilizada de maneira dúbia ou conflitante em trabalhos diversos. O assunto é ainda controverso e tem gerado iniciativas como as do Comitê Internacional, organizado pela American Foundation of Urological Disease, na busca de melhores definições dos termos utilizados nas disfunções sexuais femininas.

O Comitê, formado por 13 membros de 7 países diferentes, tem-se reunido freqüentemente e interagido por meio eletrônico, tendo apresentado seus primeiros resultados em Paris, em julho de 2003 (Basson et al., 2004).

A incidência da disfunção na mulher está diretamente relacionada à idade e afeta entre 30% e 50% das americanas.

Dada a elevada freqüência, é difícil estabelecer a relação entre uso de psicofármacos e disfunção sexual feminina, diferenciando por vezes se o achado deve-se a um efeito medicamentoso indesejável, à patologia psiquiátrica de base ou, ainda, a dificuldades sexuais prévias e conjugais da paciente (Jensvold, 1995).

Em geral, os estudos clínicos não incluem mulheres menopausadas ou com idade acima de 60 anos, porém, os estudos epidemiológicos existentes apontam que as mesmas doenças e condições que levam à disfunção erétil do homem (incluindo idade, hipertensão, tabaco, hipercolesterolemia e depressão) conduzem à disfunção sexual feminina (Montgomery et al., 2002).

Psicofármacos e disfunção sexual

Os antipsicóticos têm sido freqüentemente relacionados aos efeitos sexuais adversos, e cerca de 39% dos pacientes em uso dessas drogas referem queixa de interferência na esfera sexual. Em comparação com outros efeitos colaterais, como fadiga, ganho de peso e tremor, o efeito sobre a função sexual é considerado o mais problemático e importante razão de não-aderência ao tratamento (National Schizophrenia Foundation).

O transtorno do desejo hipoativo (TDH) é a queixa mais freqüente em ambos os sexos, sendo de difícil diagnóstico diferencial com os efeitos próprios do quadro psicótico. Um dos mecanismos propostos é o bloqueio dos receptores dopaminérgicos D2, com conseqüente elevação dos níveis de prolactina, sendo a mulher mais sensível ao uso mesmo de pequenas doses dessas drogas (Knegtering et al., 2003). Outros mecanismos sugeridos podem ser vistos na tabela 1.

A introdução dos antipsicóticos atípicos nas últimas décadas foi um importante passo terapêutico na melhoria sintomatológica e da qualidade de vida dos pacientes esquizofrênicos.

A diminuição dos efeitos colaterais, bem como a melhora expressiva dos sintomas depressivos e negativos, parece exercer efeitos favoráveis sobre o relacionamento interpessoal, o interesse e a atividade sexuais (Covington et al., 2000).

Enquanto a risperidona é o antipsicótico atípico mais correlacionado com hiperprolactinemia, as demais drogas do grupo (como a olanzapina, a clozapina, a quetipina, a ziprasidona e o aripiprazol) têm sido menos associadas aos eventos sexuais adversos (Bazire, 2000).

O lítio e outros estabilizadores do humor desempenham importantes ações sobre as neurotransmissões noradrenérgica, serotoninérgica e acetilcolinérgica, bem como sobre o sistema de segundo mensageiro.

Em função dessas ações complexas, os mecanismos de ação dessas drogas sobre a função sexual são pouco conhecidos, sugerindo-se uma ação sobre a função serotoninérgica e uma ação levando ao decréscimo da secreção da testosterona (Meston e Gorzalka, 1992).

Os principais mecanismos postulados pelos quais os psicotrópicos causam DS são:

ação inespecífica no sistema nervoso central (SNC), como sedação, levando ao desinteresse sexual;

ação específica em neurotransmissores do SNC, ocasionando diminuição do desejo, dificuldades na excitação e orgasmo (como o efeito na diminuição da dopamina que medeia a excitação sexual no hipotálamo);

efeitos periféricos, ocasionando dificuldade no orgasmo (como o efeito antiadrenérgico sobre o tônus dos vasos genitais, levando à diminuição da ereção peniana);

efeitos hormonais, como o aumento na secreção de prolactina secundário ao bloqueio dopaminérgico. Naturalmente, algumas medicações podem apresentar múltiplos efeitos e suas manifestações ser contraditórias em alguns casos.

A tabela 2 apresenta os principais efeitos colaterais induzidos pelos psicofármacos em mulheres (Jensvold et al., 2000).

Antidepressivos e disfunção sexual

Entre os psicofármacos, em função de seu uso mais difundido, os antidepressivos são as drogas mais relacionadas com DS feminina. Os antidepressivos têm sido reportados como causadores de DS em 30% a 70% das pacientes, sendo a redução da libido e a anorgasmia ou dificuldade de atingir o orgasmo as queixas mais freqüentes (Ferguson, 2001).

Outros efeitos adversos têm sido reportados mais raramente, como priapismo do clitóris (nefazodona e fluvoxamina), aumento na libido (fluvoxamina, bupropiona e trazodona) e orgasmos espontâneos (clomipramina e fluoxetina).

Vários estudos utilizando diferentes metodologias, principalmente com pacientes depressivos e ansiosos, têm apontado para o fato de que as drogas que apresentam mecanismo de ação serotoninérgica possuem maior potencial para causar disfunções sexuais.

Os antidepressivos tricíclicos (ADT), os inibidores de monoaminoxidase (IMAO) e, principalmente, os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) têm sido os mais implicados em interferências no desejo sexual e no orgasmo ou na anorgasmia ( Quadros 1, 2 e 3). A nefazodona e a bupropiona têm sido menos responsabilizadas por interferências no ciclo sexual. A venlafaxina, a mirtazapina e a milnaciprano, drogas de ação dual (serotoninérgica e noradrenérgica), ocupam aparentemente uma posição intermediária (Kristensen, 2002; Gitlin, 1994; Cordás e Laranjeiras, 2004).

Estratégias para o manuseio de disfunções sexuais ligadas ao uso de antidepressivos

As evidências de eficácia das diferentes estratégias de tratamento das disfunções sexuais ligadas ao uso de antidepressivos são ainda muito limitadas. A revisão sistemática de Taylor et al. (2005) apenas conseguiu evidenciar o efeito favorável do sildenafil em homens com disfunção erétil durante o uso de psicofármacos.

Os diferentes tratamentos analisados em mulheres estão listados na tabela 3. A maior parte dos trabalhos não evidenciou benefícios na associação dessas drogas aos antidepressivos, com exceção do uso da bupropiona.

Desde os relatos de De Batista et al. (2001) e Masand et al. (2001), o uso da bupropiona em adição ao tratamento antidepressivo com ISRS tem sido descrito. Apesar do entusiasmo inicial, os resultados ainda são conflitivos.

Em artigo de revisão, Kristensen (2002) discutiu as possibilidades de tratamento das disfunções sexuais induzidas por antidepressivos, tais como: modificações nos hábitos sexuais (como maior tempo prévio nas carícias preliminares), redução das dosagens dos antidepressivos quando possível, troca por outras medicações (com o risco de perda do efeito terapêutico) e uso de “antídotos”, como bupropiona e ioimbina. A troca por drogas mais recentes, como o escitalopram, aparentemente com menores riscos de disfunção sexual, é sugerida por alguns autores (Ashton et al., 2005). Não há estudos controlados com práticas psicoterápicas e intervenções não farmacológicas.

Apesar da existência de poucos estudos controlados sobre o tema, os efeitos colaterais na esfera sexual devem merecer maior atenção, na medida em que constituem um dos principais fatores de abandono do tratamento e, conseqüentemente, de recaída.